Coloquios dos simples

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Cette page est destinée à reproduire les données permettant l'identification des plantes des Coloquios dos simples, dans l'ordre des Coloquios. La pagination correspond à l'édition du comte de Ficalho (1891-92). Les notes de Ficalho sont reproduites quand cela est utile.

Coloquio 12

[151)

De duas maneiras de camfora e das carambolas

A camfora he de duas maneiras, huma se diz camfora de Burneo, a qual nunca foi vista em nossas regiões, ao menos de quando eu lá estava, e não me maravilho porque esta custa tanto huma libra, quanto custa hum quintal de camfora da China.

[161]

Antonia traz desse arvore alguma carambola, que assi se diz em malavar ; e ficounos em uso os nomes malavares, por ser a primeira terra que conhecemos.

Fermosas são, e sam agras doces e não muito azedas, são do tamanho de ovos pequenos de galinha e sam muito amarelas. O que milhor parece nellas, he serem fendidas em quatro partes, que fazem quatro partes menores de circulo.

Chamase em canarim e em decanim camariz, e, em malaio, balimba.

[162]

Nota (1)

Aëcio, natural de Amida na Mesopotamia, estudante em Alexandria, e mais tarde medico em Constantinopla, recebeu sem duvida o conhecimento que teve da canfora dos arabes, que já então (VI seculo) frequentavam aquellas terras... É um facto incontestavel, que os auctores arabes fallam geralmente da canfora de Kansur ou de Fansur, a qual era - como logo veremos, a do archipelago.

Noms acceptés : Dryobalanops aromatica, camphrier de Bornéo ; Cinnamomum camphora , camphrier de Chine.

Nota (4)

Averrhoa Carambola, Linn., chamada vulgarmente carambola, e kamaranga, que deve ser o seu "Camariz".

Nom accepté : Averrhoa carambola.


Coloquio 19

[287]

Das cubebas

Nam he asi nesta India ; antes sam muyto usadas dos Mouros deitados em vinho pera ajudar a Venus em suas vodas ; e na terra donde as ha, que he a Jaoa, as acustumão muito para a frialdade do estomago.

Os Arabios cubebe e quabeb, e isto em escritores ; e asi de todos quabebechini ; e em Jaoa, donde as trazem, se chamão cumucos, ou em singular cumuc ; e toda a outra gente, ecepto a que fala malayo, lhe chama cubabchini.

... e os de Goa e Calecut, e os Guzarates e Arabios ouvirão que lhe chamavão cumuc, e corruptamente lhe chamaram cubabchini, porque a trazião os Chins. E esta a verdade, e a origem deste nome.

Nom accepté : Piper cubeba.

Coloquio 36

[133]

Do mungo e melam da India, aque qua chamamos pateca

[143]

Mungo

[144]

Na Palestina sei que o ha, segundo dixe hum mouro, que dahi he ; e tambem Avicena escreve delle no segundo livro cap 489, e isto ante de o saber me custou asaz travalho, e chamase mesce, e o Belunense emenda més, mas eu soube dos fisicos e de outros letrados que se ade dizer mex, e a letra do cabo ade ser pronunciada com os dentes muyto fechados ; porque asi a pronunciam elles.

Nom accepté : Vigna radiata.

Coloquio 47

[259]

Da raiz da China

Nom accepté : Smilax china

Queria levar a Portugal alguma raiz ou páo da China...


[270]

Nota (1)

O nome de « guaiacam », do americano guaiacan, usado, segundo parece, pelos indigenas das Antilhas, dava-se ás madeiras de duas arvores do mesmo genero, e da familia das Zygophylleæ : Guaiacum officinale, Linn., uma arvore mediana das Antilhas, Cuba, Jamaica, Trinidad e outras, e tambem da terra firme da America : Guaiacum sanctum, Linn., uma arvore muito similhante á precedente, da qual se distingue por caracteres puramente botanicos, e habitando nas mesmas regiões, Cuba e outras ilhas, e parte meridional da Florida.

Esta madeira foi conhecida, ao que parece, logo depois das primeiras viagens de Colombo, e começou a ser considerada um remedio poderoso nas doenças syphiliticas, que se haviam desenvolvido pela Europa de uma maneira pavorosa por aquelles fins do XV seculo e principios do seguinte. Julgava-se a doença de importação americana, como vimos já (II, p. 115), e isto contribuia para dar importancia ao


[271]

remedio, americano tambem. A madeira foi por isso conhecida pelos nomes de guaiacum sanctum, lignum sanctum, lignum vitæ, derivados da sua verdadeira ou supposta efficacia ; e deu logar a uma abundante litteratura. Logo no anno de 1517, um Nicoláo Poli, depois medico do imperador Carlos V, escreveu um opusculo curto, De cura Morbi Gallici per Lignum Guayacanum, onde nota, que aquelle remedio, quod sanctum cognominant, parecia vir providencialmente da terra, donde viera a terrivel doença. No anno seguinte (1518), Leonardo Schmauss conta no seu De Morbo Gallico tractatus, como mandara pedir informacões a respeito do novo remedio, e obtivera de Portugal e Hespanha dezenove cartas e noticias, sobre as quaes redigíra o que dizia de arbore guaiacana. As dezenove cartas levaram de certo tempo a reunir, por onde se vê, que se devia ter começado a fallar do remedia logo no começo do seculo, como já antes notámos. Tambem no anno seguinte (1519) Ulrich von Hutten, o conhecido partidario da Reforma, e tido na conta de um excellente latinista, escreveu um opusculo encomiastico, onde celebrava a sua propria cura : Ulrichi de Hutten equitis de Guaiaci medicina et morbo gallico liber unus. Este era o « fidalgo alemam » do nosso Orta, que, reconhecendo-lhe as qualidades de escriptor « em muyto copioso estilo e mui puro latim », lhe nota, no emtanto, que tudo aquillo podia ser escripto em « huma folha de papel ». Oviedo, no seu conhecido livro sobre as Indias occidentaes (1526), e muito mais tarde Monardes, no não menos conhecido tratado das Drogas de las Indias (1569), deram igualmentc varias noticias interessantes sobre o guaiacan ; noticias que não vem ao nosso caso, e não será necessario resumir.

Aquella droga vinha, pois, das novas possessões americanas hespanholas a Sevilha e outros mercados de Hespanha, d'onde, como vemos pelo nosso Orta, passava a Portugal, sendo exportada d'aqui para a India oriental.

(Cf. Pharmac., 92 ; Poli, Schmauss, e Hutten, em Aloysio Luisino, Aphrodisiacus, sive de lue venerea, p. 241, 383, 275 ; Oviedo, em Ramusio, III, 54 e 124 ; Monardes, nos Exoticorum, 312.)


Nota (2)

A raiz da China pertencia a uma planta trepadeira e espinhosa da familia das Smilaceæ, Smilax China, Linn. (S. ferox, Wallich), espontanea na China e Japão, assim como em algumas provincias orientaes da India ; mas Orta não conhecia esta ultima procedencia.

Todo o 'Coloquio', com as suas longas e um tanto fastidiosas esplanações sobre as regras a seguir na applicação da raiz da China, e regimen dietetico a observar, é estremamente interessante para a historia


[272]

da medicina, pois é a primeira noticia scientifica, sobre a introducção na India de um nova remedio, que d'ali passou para a Europa. Não exige, porém, nem comporta uma longa nota, pois não tem muitos pontos obscuros a elucidar.

A nova droga, começada a applicar corn proveito na India, no anno de 1535, depois da noticia dada em Diu a Martim Affonso de Sousa, foi trazida desde logo para a Europa, creando-lhe sobretudo reputação o facto de ser tomada com favoravel resultado pelo imperador Carlos V, que soffria de gotta. E o celebre medico e cirurgião, André Vesalio, escreveu e publicou em o anno de 1S46 urna carta sobre este assumpto especial: Epistola rationem, modumque propinandi radicis Chinæ decocti, quo nuper invictissimus Carolus V imperator usus est. Orta conhecia esta carta, onde vem algumas criticas e reparos ao novo remedio [1]; assim como conhecia o que haviam dito em seu desfavor, e em seu loovor, o erudito Andre Laguna, e o eruditissimo Matthioli. A raiz da China, preconisada no tratamento das doenças syphiliticas, que atrahiam então todas as attenções, foi effectivamente muito discutida, louvada e preferida ao guaiaco por uns, e n'esse numero entrava o nosso Orta, tida em conta inferior por outres e creio que pelo maior numero. Por outro lado, as sarsaparilhas, provenientes de diversas especies americanas do mesmo genero Smilax, começaram quasi pelo mesmo tempo a ser conhecidas na Europa, e a sua crescentc reputação contribuiu para diminuir a voga da raiz da China. Na Europa caiu em quasi completa abandono ; mas no Oriente, na China e na India, onde é geralmente conhecida pelo nome persa chúb-chini (páo da China), consomem-se ainda hoje enormes quantidades d'aquella droga, sendo geralmente considerada anti-rheumatica, anti-syphilitica e aphrodisiaca.

A noticia de Orta, de que « na China comem este páo cozido com a carne, como nos os nabos », vem confirmada modernamente por Polak, citado na Pharmacographia, o qual affirma que serve de alimento aos Turcomanos e aos Mongoes. É possivel, no emtanto, que a noticia de Orta, como a de Polak, resulte de alguma confusão da raiz da China, chamada n'aquelle payz tu-fuh-ling, com um singular cogumello, o Pachyma Cocos, chamado fuh-ling, e que effectivamente serve de alimento.

Orta toca n'este Coloquio, como ja tinha feito no trigesimo quarto, em uma questão complicada, a antiga existencia da syphilis no Oriente, questão em que reconheço a minha absoluta incompetencia. Nao se percebe muito bem, se Orta admitte a importação da doença na Europa nos fins do XV seculo, o que era então a doutrina corrente, e unicamente

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  1. O nosso Orta tem rasão, e Vesalio faz effectivamente, varias críticas ao novo remedio, devendo eu emendar n'este ponto o que disse em Garcia da Orta e o seu tempo, p. 294.


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diz, que ella existira de todo o tempo n'aquellas « terras todas e na China e em Japam », como existia na America ; ou se francamente rejeita a doutrina da importação, suppondo aquella doença antiga em toda o mundo. Este ultimo modo de ver, foi sustentado em tempos relativamente antigos, assim como nos modernos, admittindo-se, por exemplo, que o chamado fogo persa, muito espalhado pelo Oriente, seria a syphilis ; e encontrando-se tambem na Biblia algumas passagens, significativas da existencia da doença entre os hebreus, desde o tempo de Moysés. No caso de Orta, como em muitos outros, a questão complica-se pelo facto de elle não distinguir claramente as doenças syphiliticas das simplesmente venereas ; e eu - repito- deixarei a discussão a pessoa mais competente.

Notarei unicamente dous factos, que parecem contrariar a opinião de Orta, e indicar uma importação no Oriente pelos europeus, principalmente pelos portuguezes : o primeiro, apontado pelo proprio Orta no Coloquio trigesimo quarto, é o nome fringui dada ás boubas na India, e que é a simples corrupção de frangue, e indica uma origem europea do mal, trazido pelos frangues ou francos : o segundo é uma phrase de Antonio Pigafetta, o companheiro de viagem de Magalhães na primeira circumnavegação do globo, o qual diz, que em Timor e outras ilhas (1522) chamavam á syphilis mal de Portugal : ... in tutte queste isole ... regna una malatthia che quei popoli la chiamano il mal di Portogallo, e noi altri in Italia il mal francese. (Cf. Pharmac., 648 ; a carta de André Vesalio em A. Luisino, Aphrodisiacus, 586 ; Dymock, Mat. med., 838 ; sobre o Pachyma Cocos e outras producções analogas, Hanbury, Science papers, 200 e seguintes ; Hamonic, Les maladies vénériennes chez les Hebreux à l'Époque Biblique, nos Ann. de Dermatologie et de Syphiligraphie (1886 e 1887) ; Pigafetta em Ramusio, I, 368 verso.)


Nota (3)

As jarras martavans eram fabricadas na região da Indo-China, que lhes dava o nome, e muito apreciadas em todo o Oriente. Deviam ser de barro vidrado, posto que Duarte Barbosa diga serem de porcellana. Eis a passagem de Duarte Barbosa: « ... tambem se fazem n'este lugar (Martabam) muytas e grandes jarras de porcelana, muy grosas, rijas, e fermosas ; ha hy dellas que levaom hũa pipa dagoa ; saom vidradas por dentro de preto e muyto estimadas entre os Mouros ».

Linschoten (1598) ainda lhes attribue maiores dimensões, dizendo que algumas podiam levar duas pipas ; e Pyrard de Laval (1610) tambem as louva muito : ... des jarres les plus belles, les mieux vernies et les mieux façonnées que j'aye vu ailleurs (cf. Duarte Barbosa, Livro, 361 ; Yule e Burnell, Gloss., v. Martaban).

Coloquio 57

[363]

Da zedoaria e zerumbet

Noms acceptés : Curcuma aromatica, Curcuma picta

Ruano

Bem sabeis quanta duvida ha em o que se chama zedoaria, e o que se chama zerumbet ; porque Avicena faz dous capitulos, e Serapio hum só de zerumbet, e Rasis faz hum capitulo de ambos : decraraime isto, dizendo os nomes e se o usam a gente da terra.

[Vous connaissez bien tous les doutes qui existent sur ce que l'on appelle zedoaria et zerumbet ; Avicenne en a fait deux chapitres, et Sérapion un seul sur le zerumbet, alors que Rhazès a fait un chapitre sur les deux.]

Orta

A mesma duvida, que vós tendes, tive eu muyto tempo ; e asentei que, por zedoaria ser mais famosa, era o que chamamos zerumba, drogua usada pera Ormuz e dahi levada pera a Turquia e Veneza ; e que o zerumbet era o que chamamos açafram da terra, que na feiçam sua se parece com a ruiva seca nossa, de que ja vos falei acima no croco indiano. E depois que muyto cuidei nisso e o enqueri, soube que estava enguanado, por os efeitos e obras diversas que o açafram da terra faz das que escrevem da zedoaria e zerumbet, asi chamade de nós ; porque da zedoaria faz capitulo Avicena[1] e de zerumbet ; e isto que chamamos zedoaria chama Avicena geiduar, e outro nome lhe não sei ; porque o não ha senam nas terras confins á China. E este geiduar he huma mézinha de muyto preço, e não achada senão nas mãos dos que os Gentios chamam jogues, ou outros a que os Mouros chamam calandares; e todos estes sam peregrinos, que vivem mendicando e peregrinando, e visitando as suas casas de idolatrias ; e destes vos falei já, dos quais ham

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  1. Avicena, Lib. 2, cap. 742 (nota do auctor). Na edição de Rinio, cap. 745 De zedoaria, 747 De zerumbet, 754 De zeduar.


[364]

os reis e grandes pessoas este geiduar, a que nós corrutamente chamamos zedoaria.

Ruano

E como soubestes isto, que tarn ousadamente falaes ?

Orta

Os fizicos do Nizamoxa mo dixeram : querendoa dar a hum homem no arraial do Nizamoxa contra a mordedura de huma bicha, a mandaram pedir ao rey ; aos quaes eu dixe, que os buticairos a tinham, e lha mostrei ; elles responderam, que isso que lhe eu mostrava era zerumba, e não o geiduar ; e dandoa contra a mordedura da bicha, se achou o trabalhador bem, e lhe tornou o pulso, e se lhe esforçou a virtude.

Ruano

E de que feiçam era essa zedoaria ?

Orta

Tamanha como huma bolota, e casi dessa feiçam, e a cor era lucida : pedi a elrey hum arratel dessa mézinha ; e disseme que não me podia dar tanta, e deume hum pedaço que pesaria mea onça ; a qual mostrei aos buticairos de Chaul e de Goa, e todos me diseram que não conheciam aquella mézinha, e que não usariam della. E esta mandei a Portugal com huma pedra armenia, e tudo se perdeo, e a náo em que hia, Deos seja louvado. E despois achei na mão de hum jogue huma pouca, e nam lha comprei, porque a nao conhecia bem. E se tivera algum fizico ahi, eu lha comprara, e vola mostrara aguora.

Ruano

Aproveita pera outras causas este geiduar ?

Orta

Diseme o Mula Ucem (e este era um fizico letrado, que eu conversei, estando em Juner curando os filhos do Nizamoxa) e me disse que aproveitava pera 36 cousas ; e elle


[365]

me disse muytas dellas, e eu 1ha vi aplicar em hum giolho, que estava com dor hum mercador. E ao menos podeis crer que he mézinha que se estima em muyto, e o principal he contra a peçonha.

Ruano

Pois Aviçena nam faz tanto caso della.

Orta

Avicena não a conheceo, e foy muyto duvidoso nesta mézinha ; porque nas cousas de duvida faz Avicena dous capitulos, e assi fez nesta porque no capitulo 752 diz : geiduar quid est ? E diz que estima que será algeiduar ; e Dioscorides nunqua falou nisto[1]. E por aqui vereis que Avicena tinha nesta mézinha duvida. E o Belunensis, na exposiçam dos nomes arabios, parece que cheirou isto ; porque faz mençam de zeduar e de zedoaria, e de zerumbat. E por aqui sabereis que he zedoaria nome corruto, e geiduar verdadeiro. E aguora vos direi o que he zerumbet, e vós ao cabo vireis com vossas contradições, como acustumaes ; mas eu ei de ficar em pé, porque a verdade tem pés, e anda e nunqua morre. E diguo que o zerumbet se chama dos Arabios e Persas e Turcos zerumba, e dos Guzarates e Decanins e Canarins cachorá, e dos Malavres çua[2]. A maior cantidade della he no Malavar, scilicet, em Calecut e Cananor ; e nasce no mato, e, se a plantam ou semeam, nasce em muytas partes, e em todo o cabo. Chamamlhe muytos gengivre do mato, e tem rezam ; porque na folha he semelhante ao gengivre, senão que a folha he mais larga da zerumba, e mais aberta, e a raiz da zerumba he mais grande ; e des que he colhida a secam em talhadas, e a levam a Ormuz

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  1. Aliás, cap. 754. - O curtissimo capitulo de Avicena é textualmente o seguinte : Zeduar quid est ? Inquit Dios. Est algieduar. i. secundum quod existimo.
  2. Sic na edição de Goa, mas deve ler-se cua ; e as cedilhas são postas em todo o livro com uma grande irregularidade.


[368]

Nota (1)

Este ultimo Coloquio da serie alphabetica suscita algumas duvidas e difficuldades. Para as expor com a possivel clareza, necessitâmos dizer primeiro o que hoje se julga geralmente ser a zedoaria e o zerumbet, seguindo principalmente os exce11entes capitulos de Dymock sobre o assumpto.

A zedoaria amarella procede da Curcuma aromatica, Salisb. (Curcuma Zedoaria, Roxb.), uma planta da familia das Scitamineæ.

Este rhizoma é o vanaharidra dos livros sanskritos, e parece tambem ser o جدوار, djeduar ou geiduar dos arabes e de Avicena. É considerado medicinal pelos hindus, e nomeadamente util em cases de envenenamentos, mordeduras de cobras e outros. D'aqui lhe veio um dos nomes sanskriticos, निविसा, nirvishā, e d'aqui sem duvida procedia tambem aquella idéa de Avicenna, de ser melhor o que crescia junte ao napello, e enfraquecia o napello. A Curcuma aromatica é espontanea no Concan,


[369]

e tambem no Malabar, d'onde hoje se abastece em grande parte o mercado de Bombaim. A droga parece ser bastante commum.

A zedoaria cinzenta procede da Curcuma Zedoaria, Roscoe (Curcuma Zerumbet, Roxb.), do mesmo genero e familia que a precedente. (Nom accepté : Curcuma picta).

Esta droga é o زرمباد, zerumbad (nas versões zerumbet) de Avicenna, Serapio, e em geral dos arabes. É chamada kachúra pelas hindus, do sanscrito करचूरा karchūrā ; e é igualmente a droga de que Rhede falla sob o nome geral de kua, dado tambem no Malabar a mais especies do mesmo genero. A planta parece ser bastante vulgar na India meridional, e é commum nas hortas de Bombaim, onde Dymock julga teria sido introduzida pelos portuguezes. A droga encontra-se com frequencia nos bazares, e tem algumas applicações medicinaes, sendo tambem usada como condimento ou especiaria. Dimock é de opinião, que a zedoaria longa e a zedoaria redonda do commercio procedem ambas d'esta especie, e são simples fórmas do mesmo rhizoma. Esta zedoaria vinha desde tempos antigos para a Europa, onde foram conhecidas as suas variedades longa e redonda.

Isto posto, vejamos o que diz Orta. É claro que elle conheceu perfeitamente o rhizoma da Curcuma Zedoaria, de que falla sob o nome de zerumbet. Dá-nos todos os nomes vulgares, que citamos acima : « zerumba » entre os arabes, « cachorá » entre os hindus, « cua » no Malabar. Conheceu as duas formas redonda e longa ; e está perfeitamente ao facto do commercio que para a Europa se fazia n'esta droga.

Nao é igualmente claro que elle se refira ao rhizoma da Curcuma aromatica, pelo nome de zedoaria e geiduar. Por um lado, é favoravel a esta identificacão o facto, que elle cita, de o darem para a « mordedura de uma bicha » ; mas, por outro, a sua descripção concorda mal com aquelle rhizoma, que nao é « lucido », nem tem o tamanho e a feição de uma bolota. E não é provavel, que nem elle, nem os boticarios de Chaul e de Goa, conhecessem uma droga, que a final nao é rara na India. O que parece ser é que Orta confundisse algumas cousas que lhe disseram do verdadeiro geiduar, procedente da Curcuma aromatica, com uma droga rara da China, que viu em poder do Nizam Scháh. Esta droga poderia ser algum rhizoma ou tuberculo de outra Curcuma, vindo d'aquellas regiões. Uns tuberculos de uma Curcuma, descriptos e figurados par Hanbury nas suas Notes ou chinese Materia Medica, procedentes da China, onde são chamados yuh-kin, corresponderiam approximadamente á descripção de Orta. Nao é possivel affirmar, que esta fosse a sua zedoaria, mas seria alguma cousa similhante.

(Cf. Dymock, Mat. med., 769, 771 ; Ainslie, Mat. Ind., 1, 490, Hanbury, Science papers, 254.)